Serra da Estrela

Vale Glaciar do Zêzere

 

Vale Glaciar do Zêzere, 13kms de extensão, um dos maiores da Europa, maravilhosa dádiva da Natureza e, ao mesmo tempo, uma lição a céu aberto sobre os vestígios da última época de glaciação, há milhares de anos.

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Na sua forma de «U», ostenta inigualáveis belezas geológicas, como as austeras rochas graníticas dos Cântaros, Magro, Gordo e Raso (a 1.928 metros de altitude) e reservas biogenéticas de elevado valor natural e paisagístico.

No sopé do Magro (a 1420 metros de altitude), uma jóia do Vale, o Covão D’Ametade, antiga lagoa glaciar de beleza incomparável.

Entre o sinuoso percurso do Vale Glaciar, onde a terra já mais não rende que algum pastoreio e pequenas bolsas de uma débil agricultura de subsistência, o Zêzere corre veloz, escapando-se, audaz e destemido, apressado em chegar a paragens mais tranquilas.

O Vale Glaciar do Zêzere, profunda garganta de direcção NNE-SSW, instalado numa importante falha, é um dos melhores exemplos de como os glaciares modelaram a paisagem: a forma em «U» deve-se à maciça presença de gelo no cimo da montanha, criando como que uma cúpula de onde vertiam “línguas” para os vales periféricos.

Sendo um Vale Glaciar, e por isso muito aberto, as encostas são muito íngremes, cobertas de bolas graníticas e um caos de blocos rochosos, principalmente na base de línguas de água.

No fundo do Vale, o Rio Zêzere, pastos verdejantes que rebanhos de ovelhas e cabras pacificamente repartem harmonizam a paisagem. São visíveis ainda algumas construções típicas da serra (características casas de pedra com telhados em colmo de palha de centeio ou giesta), por ali chamadas de «cortes», assim como as casas da guarda-florestal.

O pastoreio e a agricultura que resiste convivem, harmoniosamente, com um sem número de espécies de fauna e flora, em paisagens de rara beleza que emprestam ainda mais encanto ao Vale.
A língua de gelo principal, a que deu origem ao Vale Glaciar do Zêzere, estendia-se até território onde se situa hoje a Vila de Manteigas. Só mais adiante, a cerca de 680 metros de altitude, se iniciava o processo de dissolução.
Essa língua, alimentada pelas línguas afluentes da Nave de Santo António, do Covão D’Ametade, da Candieira e dos Covões, chegava a atingir impressionantes 300 metros de espessura. As moreias existentes, espaços onde os gelos depositaram enormes blocos de rocha deslocadas do planalto glaciar, são disso fiável testemunho: a Lagoa Seca, a Nave de Santo António e a Candieira.

Era tal a força do gelo, uma indomável força da Natureza, que consigo carregava blocos rochosos de proporções invulgares, como o espectacular Poio do Judeu, cerca de 150 m3 de granito, um monstro inerte com mais de 500 toneladas que jaz no alto da Nave de Santo António.
Os glaciares da Serra da Estrela criaram inúmeros depósitos sedimentares, característicos da paisagem do maciço e prova da existência da própria glaciação.

Nas encostas do Vale, prende a atenção a grandiosidade das vertentes abruptas, sulcadas por linhas de água que caem em cascata e que, em tempos idos foram moldadas pelos gelos. Na margem direita do Zêzere, a mancha verde corresponde à floresta da Mata Nacional; na esquerda, ressaltam os piornais e «agarrados» aos rochedos, exemplares de carvalho negral, resquícios da floresta primitiva.

Alterações no sistema ecológico local, com reflexos na flora, poderão ter-se desenvolvido em função das formações geológicas típicas associadas à morfogenese glaciária, processo de modelagem. Nomeadamente ao nível de variações no declive, orientação das vertentes ao sol e aos ventos, existência ou não de regolitos (nome dado aos fragmentos de pedra que cobrem a superfície da Lua devido a erosão cósmica)e sua granulometria e de depósitos sedimentares.

É este Vale, este maravilhoso Vale Glaciar do Zêzere, integrado no Parque Natural da Serra da Estrela e Rede Natura 2000, que vale a pena proteger e apreciar.